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A musicalidade na Educação Infantil  

Ana Márcia Paulino da Silva

Psicopedagoga

A música é a linguagem l que se traduz em formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações, sentimento e pensamento. É uma forma importante de expressão humana, portanto, sua presença no contexto da educação é de suma importância, principalmente na educação infantil, onde o trabalho com a música são fontes de prazer, alegrias e possibilidades efetivas para o desenvolvimento motor e rítmico, integrando gestos, som e movimentos.

O processo de consolidação da Educação Infantil como primeira etapa da educação básica tem sido marcado por um intenso debate no qual fica manifesta uma crescente tentativa de compreensão acerca dos processos de desenvolvimento das crianças, assim como de seus mecanismos de apropriação de significados e de suas inúmeras e ilimitadas formas de expressão.

 A partir de um conjunto de leis e documentos oficiais, tais como a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), a LDBEN 9394/96, os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998), além de normatizações em nível estadual e municipal, mudanças têm sido verificadas, abarcando um redimensionamento das concepções, das práticas pedagógicas e da atuação dos profissionais envolvidos.

É nesse contexto que o papel das linguagens artísticas no desenvolvimento da criança de 0 a 6 anos tem se tornado objeto de investigação no Brasil e no exterior (EDWARDS, 1999 e KRAMER, 1998).

A música é uma linguagem que  está presente, de modo inequívoco, no cotidiano das crianças. Os brinquedos musicais fazem parte da vida da criança desde muito cedo - é por meio dos acalantos, das parlendas, dos brinquedos ritmados entre mãe e bebê, que se estabelecem as primeiras experiências lúdico-musicais da vida humana. Mais tarde, outros tipos de brincadeiras musicais, cada vez mais dinâmicas e diversificadas, vão ampliando os referenciais auditivos das crianças, num processo sempre crescente.

Este processo tende a se intensificar com o acesso aos meios de comunicação de massas e a diferentes fontes sonoras, processo esse atualmente bastante disseminado junto às diferentes camadas da população brasileira. Sobre isso, é sintomático que levantamentos socioeconômicos feitos junto a populações carentes têm detectado a presença de aparelhos de som em quase 90% das residências, índice superior a outros eletrodomésticos em geral tidos como de primeira necessidade. Esses dados confirmam o pensamento de Snyders (1992) quando afirma que nunca uma geração viveu a música tão intensamente quanto as atuais.

 Contudo, a pesquisa acerca da música nos ambientes da educação básica, em particular nos da Educação Infantil, permanece tímida. Nos meios acadêmicos da área da Educação, tende a ser vista como ornamental, pouco substantiva, ou é tratada de forma pouco científica; no campo da Música, é pouco valorizada ou carece de concepções mais sólidas a respeito da Educação Infantil como primeira etapa da educação básica.

É perceptível, no entanto, a hegemonia de concepções pedagógicas tradicionais, nas quais a música, quase sempre reduzida à forma de canção, não tem especificidade ou conteúdos próprios. Serve sempre de estratégia para a obtenção de padrões de comportamento, tais como lanchar, formar a fila, descansar (“musiquinhas de comando”) ou para a fixação de conteúdos de outras áreas (canções para conhecer as vogais, para aprender os numerais), na questionável tentativa de uma alfabetização precoce. Outra prática recorrente é a da utilização da música dentro de um rígido calendário das festividades: música para o Dia das Mães, para a Páscoa, para o Dia do Índio, num infinito rol de comemorações, quase nunca efetivamente significativas para a criança.

E, no afã de cumprir com esse extenso calendário, muitas vezes o educador deixa de explorar as possibilidades expressivas da música, deixando de proporcionar à criança um contato mais exploratório e prazeroso com a linguagem musical, cuidando apenas do resultado final a ser apresentado ao término de tediosos ensaios. Ou seja, a riqueza do processo de exploração e descoberta das delícias da música e do movimento é menosprezada em função de uma ênfase na apresentação, em um produto final mecânico, estereotipado, quase sempre pouco expressivo.

O trabalho pedagógico na área de música encontra-se bastante defasado em relação a outras áreas do conhecimento, as quais, em sua grande parte, já apontam para uma concepção de educação infantil mais crítica e transformadora. Até mesmo no amplo espectro da arte, podemos verificar que as propostas em artes visuais têm acompanhado mais de perto essa concepção (como, por exemplo, LEITE, 1998, entre outros). Em um momento em que os diferentes profissionais envolvidos travam um significativo esforço no sentido de redimensionar as práticas, as abordagens, os ambientes e modos de atuação, a música, paradoxalmente, continua sendo trabalhada, e o que é mais grave, compreendida, de forma mecanicista e convencional.

 São diversas as explicações para que isso aconteça: vão desde razões históricas que apontam para uma desvalorização das linguagens artísticas na escola (FUSARI e FERRAZ, 1992 e BARBOSA, 1995), passando por deficiências na formação dos professores, tanto na de especialistas (licenciados em música), quanto na de pedagogos, até a falta de ambiente e material adequado.

Assim, salta aos olhos, a dificuldade que acompanha grande parte dos educadores de crianças pequenas, no sentido de explorar a música nas suas múltiplas possibilidades. Muitos apontam para limitações de ordem pessoal (“não sei tocar nenhum instrumento”, “sou desafinada”) para justificar a ausência da linguagem musical no cotidiano se seus alunos. Outra queixa comum - recorrente nos mais diversos espaços nos quais lidamos com profissionais da educação infantil, tais como seminários e cursos de extensão - é a da falta de material de qualidade, particularmente CDs, fitas e vídeos. Questionam-se como poderão ampliar os referenciais musicais das crianças, se não têm acesso a outros tipos de produção, além daquelas veiculadas pelos grandes meios de comunicação, produtos da indústria cultural caracterizados por sua pouca qualidade estética (NOGUEIRA, 2001 e 2004).

O trabalho pedagógico com a linguagem musical, a partir de um repertório diferenciado e de boa qualidade permite avançar no conhecimento das possibilidades da música no ambiente da Educação Infantil, verificando os limites e o alcance da atuação dos educadores como mediadores entre a criança e a linguagem musical. 

Geralmente a música é sub-utilizada. Ela não está presente na rotina das crianças e as poucas atividades com a linguagem musical aconteciam sem a intervenção das educadoras (música ambiente). É necessário construir canais que efetivamente possam resultar em propostas concretas e viáveis para a inserção da linguagem musical nos espaços de Educação Infantil, não em momentos fragmentados e estanques, mas presente no cotidiano destas crianças como mais uma de suas inúmeras formas de expressão. 

Por seu poder criador e liberador, a música torna-se um poderoso recurso educativo a ser utilizado na Pré-Escola. É preciso que a criança seja habituada a expressar-se musicalmente desde os primeiros anos de sua vida, para que a música venha a se constituir numa faculdade permanente de seu ser.

A música representa uma importante fonte de estímulos, equilíbrio e felicidade para a criança.  Assim, na Educação Infantil os fatos musicais devem induzir ações, comportamentos motores e gestuais ( ritmos marcados caminhando, batidos com as mãos, e até mesmo falados), inseparáveis da educação perceptiva propriamente dita.

Até o primeiro ano de vida, as janelas escancaradas são as dos sentidos. “ A criança está aberta para receber” , diz Muszkat. Contar histórias, pôr música na vitrola, agarrar e beijar, brincar com a fala são estímulos que ajudam o aperfeiçoamento das ligações neurais das regiões sensoriais do cérebro.

Gardner admite que a inteligência musical esteja relacionada à capacidade de organizar sons de maneira criativa e à discriminação dos elementos constituintes da Música. A teoria afirma que pessoas dotadas dessa inteligência não precisam de aprendizado formal para colocá-la em prática. Isso é  real, pois não está sendo questionado o resultado da aplicação da inteligência, mas sim a potencialidade para se trabalhar com a música.

Musicalidade é a tendência ou inclinação do indivíduo para a música. Quanto maior a musicalidade, mais rápido será seu desenvolvimento. Costuma  revelar-se na infância e independe de formação acadêmica.

Musicalização é um processo cognitivo e sensorial que envolve o contato com o mundo sonoro e a percepção rítmica, melódica e harmônica. Ela pode ocorrer intuitivamente ou por intermédio da orientação de um profissional.

Se todos nascem potencialmente inteligentes, a musicalidade e a musicalização intuitiva são inerentes a todo ser humano. No entanto, apenas uma porcentagem da população  as desenvolvem. Grandes nomes considerados gênios da música iniciaram seus estudos na infância, Mozart, Beethoven, Bach , Carlos Gomes e Villa Lobos, entre outros iniciaram seus estudos tendo como mestres os seus respectivos pais.

Embora o incentivo ambiental familiar e a iniciação na infância sejam positivos, não são essenciais na formação musical. Outros fatores podem ser estímulos favoráveis ao desenvolvimento da inteligência musical: a escola, os amigos, os meios de comunicação...

Talento e conhecimento caminham sempre juntos  e um depende do outro. Quanto maior o talento mais fácil se torna o conhecimento. Quanto maior o conhecimento, mais se desenvolve o talento.

            Músicos  não nascem prontos. Nascem com talento e adquirem  formação para se tornarem os músicos que desejam ser.

 

A micro mania contaminou músicos profissionais e amadores, interessados em usufruir dos atuais recursos tecnológicos aplicados à musica. Graças a programas de computador, é possível obter noções de teoria musical, compor, fazer arranjos, mixagem, editar partituras, gravar CD, trocar informações... tudo isso sem sair de casa ou utilizando um pequeno espaço.

 De fato, um usuário de micro, que tem um certo grau de musicalidade intuitiva, pode utilizar-se dos aplicativos e obter bons resultados. No entanto, seu trabalho não será tão eficiente quanto aquele que é desenvolvido pelo músico.

Não se deve esquecer que a linguagem musical acompanha a humanidade desde o início da civilização. A escrita na pauta foi criada posteriormente, para registrá-la e mantê-la viva de forma codificada. Alguns valorizam excessivamente a teoria, como se não existisse música sem ela.

Às vésperas de um novo século, não é de se estranhar que novas técnicas musicais tenham surgido e participem do dia a dia das pessoas que  optaram pela modernização.

A música atua no corpo e desperta emoções. Pode aumentar ou equilibrar o metabolismo, aumentar ou diminuir a energia muscular, acelerar a respiração ou diminuir sua regularidade, causar mudanças no volume de sangue, pulsação e pressão, interferir na receptividade sensorial, minimizar os efeitos de fadiga ou levar à excitação.

Não é fácil encontrar uma só parte do corpo que não sofra influência dos sons musicais. A música afeta a digestão, age nas secreções e nas redes neurológicas. Estudos recentes determinaram que ela diminui o colesterol na corrente sangüínea. O organismo reage de acordo com a origem das vibrações e características dos sons. O som age diretamente sobre o organismo por que é absorvido pelas células e órgãos e indiretamente por meio das emoções que  interferem nos processos orgânicos.  

Na gradação de atividades, o professor deverá iniciar com a percepção da criança em relação a si mesma e a partir daí, com o ambiente próximo e o mundo mais distante.

Começar com ritmos fáceis, melodias simples, é um lembrete que não se pode esquecer. Apesar de se recomendar ao professor que inicie as experiências musicais com a criança a partir de sons e ritmos que ela possa produzir com o seu próprio corpo, lembrando que o canto é a manifestação global da música. E, pelo entusiasmo e alegria que desperta na criança, pode e deve estar sendo desenvolvido ao lado das outras atividades.

Compreende-se a música como linguagem e forma de conhecimento que está presente no cotidiano da criança de modo intenso: no rádio, na TV, nas brincadeiras, jogos de mão etc. Portanto, o trabalho com a música deve ser visto como um meio de expressão e forma de conhecimento acessível à criança.a linguagem musical é um excelente meio para o desenvolvimento da expressão, do equilíbrio, da auto-estima e autoconhecimento, além de poderoso meio de integração social.

 

BIBLIOGRAFIA

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